História de um fracasso (e é meu!)

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Tempo de leitura: 6 minutos

As histórias de sucesso inspiram-nos.

As histórias de fracassos ensinam-nos e transformam a forma como vemos os erros.

Neste artigo vou contar-te como comecei o meu primeiro projeto por conta própria, o entusiasmo, as dificuldades, o fracasso e as lições que retirei daí.

Prepara as pipocas!

O Drama

Em 2013, depois de 3 anos a trabalhar numa empresa onde estava sozinha 90% do tempo, sem trabalho para fazer nas 8 horas em que tinha de estar enclausurada no escritório e a lidar com uma chefe bipolar, decidi que tinha de arriscar ou ia morrer ali.

Ou mantinha-me em coma profissional por estado indefinido ou arranjava um grande par de tomates e despedia-me.

Estávamos em plena crise financeira. Eu já tinha concluído uma Pós-Graduação em Gestão de RH e não havia forma de arranjar trabalho na área. Tinha uma casa e contas para pagar.

Tracei o pior cenário possível: se falhasse, perderia a minha independência.

Por outro lado, se continuasse naquela empresa, onde já me sentia a perder competências técnicas e até interpessoais, o risco era de uma depressão e o futuro não era nada risonho.

Não sou pessoa de me acomodar. Podem dizer que sou insatisfeita e inquieta, que estou sempre a mudar. Mas se o faço, é por um bom motivo. É porque ainda não encontrei o espaço em que me sinto realizada, apreciada e onde dar o meu melhor é reconhecido e valorizado.

Assim, munida de muita coragem e forte apoio da minha família, optei pela segunda hipótese: despedi-me.

Não sabia o que ia fazer. Mas sabia que precisava de algo que me fizesse sentir viva. E isso acontece sempre que crio algo. Sempre que tenho um novo projeto.

O Entusiasmo

Pesquisei muito na internet e encontrei uma forma de utilizar todas as minhas competências mas de forma completamente diferente: ser uma Assistente Virtual.

Trabalhar como Assistente Virtual iria permitir-me gerir os trabalhos que queria aceitar, ter uma diversidade de tarefas e clientes que traria sempre uma componente de novidade e não estar presa a um escritório 8 a 9 horas por dia, só porque sim.

Em Portugal havia muito pouca informação sobre esta atividade. Encontrei cerca de 3 a 4 pessoas que faziam algo semelhante. Mas no Reino Unido e nos EUA esta profissão tinha visibilidade e guiei-me por aí para começar a construir o meu negócio.

O facto de ser um conceito pouco explorado em Portugal podia significar uma excelente oportunidade, ou um autêntico fracasso.

Comecei a assistir a workshops sobre empreendedorismo e estruturei o meu plano de negócios. Por mais pequeno que fosse o projeto que estava a implementar, pensei em tudo o que podia fazer sentido.

Fiz benchmarking, análise swot, desenhei a identidade visual da minha marca, criei o meu site, o meu portefolio de serviços e em 3 semanas, estava preparada para apresentar ao mundo a minha marca:

As Dificuldades

O objetivo da minha marca era poderoso: providenciar um conjunto de serviços dentro das minhas competências para descomplicar o dia-a-dia das pessoas, libertando-as para terem tempo para o que realmente importa (fosse o seu negócio ou a sua vida pessoal).

Participei em algumas reuniões de networking e divulguei o meu projeto a todos os conhecidos.

O feedback foi positivo, mas… sempre que eu tentava explicar a alguém o que fazia, era muito difícil a pessoa compreender como eu conseguiria assegurar as tarefas à distância e sem um horário definido.

Foi difícil passar a mensagem.

Ainda assim, a pouco e pouco, a minha dedicação começou a dar frutos: fui abordada por algumas pessoas que precisavam de apoio administrativo, mas… na ótica de passar 3 a 4 horas num escritório para desempenhar as tarefas que pretendiam.

Ora, quando se trabalha de forma independente os valores que cobramos não podem ser iguais ao valor/hora de um trabalhador por conta de outrem.

Conseguir que pagassem o valor que eu apresentava foi uma das maiores dificuldades.

As empresas / os profissionais independentes não conseguiam perceber a vantagem de não ter de pagar impostos acrescidos por este serviço independente. Apenas conseguiam olhar para o valor/hora e achar caro por uma tarefa que achavam não valer aquela quantia.

Ao fim de poucos meses dei por mim a trabalhar com duas empresas em regime de part-time, nos escritórios de cada uma, o que me fazia ter de atravessar a cidade a correr para conseguir estar a tempo em cada uma delas. Para além disso, mantinha alguns trabalhos remotos que também tinha de assegurar quando chegava a casa… ao fim de um dia de trabalho.

Percebi que não estava a fazer nada daquilo que queria fazer quando idealizei o meu projeto de trabalho.

Não conseguia ter a diversidade de experiências que pretendia, nem a liberdade para gerir os meus horários porque estava presa a duas empresas, com horários fixos.

Pior do que isso, os valores que pagavam eram tão baixos que eu mal conseguia sustentar-me.

Tive de parar para refletir sobre o que estava a acontecer.

O Fracasso

Apesar de toda aquela experiência me ter dado um gozo enorme na fase de conceptualização e me ter despertado profissionalmente, resgatando todas as minhas capacidades e competências que estavam adormecidas, eu não estava a fazer aquilo a que me propus.

Pior, eu estava muito, muito perto de perder a minha independência financeira, algo que para mim é verdadeiramente assustador.

Responsável como sou, em consciência tive de aceitar as dificuldades pelas quais estava a passar. E pedir ajuda.

Aos 33 anos, deixei a casa arrendada onde estava e voltei a morar com os meus Pais. Os meus pilares de vida.

O fracasso levou-me a uma depressão e ao sentimento de falhada.

Mas a vida mostrou-me que o ditado é verdadeiro: quando se fecha uma porta, abre-se uma janela.

Quase em simultâneo uma amiga contactou-me a perguntar se estava disponível para uma oportunidade que tinha surgido na empresa dela.

No momento certo, agarrei esta oportunidade com unhas e dentes, e voltei a trabalhar por conta de outrem, numa empresa onde tive uma das melhores experiências profissionais até hoje.

As Lições

Apesar de na altura ter sido muito difícil assumir que tinha fracassado, anos mais tarde percebi que tinha de encarar toda a experiência como uma grande aprendizagem.

Hoje em dia, 7 anos depois, consigo valorizar e orgulhar-me de tudo aquilo que criei na altura.

Também consigo identificar claramente algumas lições que aprendi.

A mais importante é garantir que o projeto que estamos a desenvolver é financeiramente sustentável.

Até termos rendimentos a partir desse projeto, podemos manter uma atividade em paralelo que dê a segurança financeira necessária para vivermos, ou ter um fundo de emergência que dure, pelo menos, 6 meses.

Mas se queremos viver daquela ideia, temos de saber como vamos ganhar dinheiro com isso, a curto, médio e longo prazo.

Até lá, podemos construir o nosso projeto passo-a-passo. Podemos errar. Podemos mudar tudo. Até podemos desistir.

Tudo isto vai permitir ter espaço de manobra para aceitar apenas os trabalhos / clientes que efetivamente vão ao encontro daquilo que estamos a oferecer. Não aceitando qualquer trabalho, só porque precisamos de dinheiro para sobreviver.

Manter sempre em mente o nosso objetivo inicial, é outra das grandes lições. Se perdemos o foco e começamos a aceitar qualquer coisa, vamos perder a motivação e, mais cedo ou mais tarde, a frustração vai-se instalar quando percebermos que não estamos a fazer aquilo que queríamos.

Conhecer o “porquê” de estarmos a investir no nosso projeto vai manter-nos no caminho certo perante os obstáculos que vão surgindo.

Marie Forleo, uma empreendedora americana muito bem sucedida, diz que existem alturas em que é preciso deixar cair algumas ideias porque não é o momento certo. Se não mexem connosco e se não temos paixão por elas, mais vale guardar na gaveta. Contudo, não as devemos descartar totalmente, quem sabe, ainda chega o dia de as recuperar.

É precisamente isto que sinto.

Hoje em dia a profissão de Assistente Virtual começa a ser mais visível em Portugal. A Academia de Assistentes Virtuais tem contribuído para a formação de novas profissionais nesta área e para a valorização desta atividade.

Então, porque não resgatar o meu projeto que tanto me entusiasmou na altura?

Porque não sinto paixão. Porque é continuar a trabalhar como assistente, tal como tenho feito ao longo dos últimos 15 anos.

Não deixo de ter mixed feelings, claro. Porque olho para trás e se tivesse tido algum apoio na altura, de profissionais na mesma situação, quem sabe não teria vingado nesta atividade como uma das primeiras a explorar o negócio de assistência virtual em Portugal.

Mas as coisas são como são. E a aceitação é uma virtude.

Em resumo, se estiveres a pensar empreender, clarifica muito bem aquilo que pretendes com o teu projeto ou negócio.

Faz um plano de negócios realista e assegura a sustentabilidade financeira a médio / longo prazo.

Fala com pessoas que já passaram por esse processo e procura ajuda, sempre que precisares.

Obrigada por estares aí 🙏🏻

Seguimos juntas!

Créditos da imagem: Photo by chuttersnap on Unsplash

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